No dia que fui à praia, essa garotinha veio vender chiclete e a gente “não, obrigada”, sendo que ela era dessas meninas fórça e, vendo nosso jornal, se interessou pelas palavras cruzadas. Já fiquei feliz em saber que a juventude miserável brasileira ao menos se interessa por palavras cruzadas - olha só, esses professores de rede pública se esforçam, mesmo! - mas a guria começou a colar do banco O TEMPO TODO, jogando minha teoria por terra. Mas estava ela ali, empolgadíssima, preenchendo os quadradinhos, me perguntando as que não tinham no banco (e eu passando por idiota, porque era só as fodas tipo “a que filo pertencem os jabutis”), enquanto o pessoal falava para a candanga inexperiente “olha aí a sua bolsa, cuidado”. Bicho, uns nove anos devia ter a menina. Só queria atenção. Não entra na minha cabeça como a sociedade chegou ao ponto de desconfiar de gente desse tamanho, de simplesmente ignorar o fato de uma garota dessa idade estar trabalhando por míseros centavos em pleno sábado à tarde. Na hora que ela, cansada da posição desconfortável na areia, perguntou se podia ”sentar na sua canga, tia?”, me deu um sentimento horroroso que eu gostaria de nunca mais sentir.
Aí ontem, voltando pela Real Grandeza de noite, vi essa mulher desviando uma calçada inteira de um garoto mal vestido, com seus, o que?, quinze anos, no máximo. Na hora que passei por ele, estava debulhando em lágrimas, implorando para que eu não achasse que era assalto, que ele tava ali desde não sei que horas, que só queria comer ou voltar para casa. A passagem era R$9,50 (”eu nunca devia ter vindo para cá”), então os meus generosos cinco reais não bastariam, que por favor eu o ajudasse e toda aquela coisa. Eu, exausta na minha querida véspera de folga, simplesmente pedi calma, desejei boa sorte e segui na minha direção, largando o moleque sozinho no mundo aos prantos, com fome, sem rumo. Claro que comecei a chorar dez passos adiante, mas não mudei de atitude e ainda acho que fiz o bastante dando cinco paus pra ele.
O Estado sou eu?




